terça-feira, 28 de março de 2017

Matei-o, disse ela enquanto as lágrimas brotavam dos seus olhos. Mas porquê, perguntei eu, enquanto a observava. As imperfeições, a fragilidade humana sempre me fascinaram. Ela respondeu-me que era o que tinha de ser feito, não podia mais viver assim. Sem lhe perguntar nada, ela explicou-me como o fez. Disse que tinha arrancado um pedaço de coração e tinha esperado até o sangue surgir, vermelho e quente, no chão. Uma e outra gota, até não restar mais nada. Eu soube de imediato que ele não estava realmente morto, que ainda vivia, que ainda tentava sobreviver de algum modo naquele corpo. Talvez se alimentasse das únicas forças que ela usava para se mover, para se movimentar, como uma sanguessuga quando encontra o seu alimento. Talvez resistisse porque ela sem saber ainda o alimentava de alguma forma. Expliquei-lhe como o tinha de matar de vez. Vive, disse-lhe eu. Ele vai acabar por morrer se tu viveres. Ela acenou afirmativamente. Ela sabia que de vez em quando ainda sentia aquele pedaço de coração a palpitar, a viver, a reviver tudo o que foi. Ela sabia que no peito ainda tinha a ferida aberta da faca que espetou, e sabia (e sentia) todos os dias as pequeníssimas células do seu coração a trabalhar incessantemente para fechar aquele coração esburacado. Todos os dias eu via-a a olhar o peito à espera que já estivesse pronto, mas todos os dias as células lhe diziam que ainda ia demorar. Moviam-se com uma lentidão quase programada de quem tem mesmo de demorar para o trabalho ficar bem feito. E ela inocente achava que estava quase. Eu sabia que não. Acredita, disse-lhe eu, deixa-o morrer, mas que no teu peito nunca morra a tua forma de amar tão bonita. No seu peito eu via o desejo de alguma coisa, o desejo de encontrar um amor tão intenso, um amor como ela só sabia amar, livre e sem medos como uma andorinha que volta na primavera.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Fazes-me falta

Fazes-me falta. É esta a frase que hoje o meu corpo todo ouve. Os meus braços, os meus olhos e especialmente o coração. Parece que o coração foi à máquina de lavar num programa estranho, desses que as máquinas de lavar têm e que eu não percebo, e ficou pequenino. Sinto-o apertado demais. Não sei se foi por ter encolhido ou por se ter tornado demasiado pequeno para o espaço que ocupas. Cada vez mais e mais. Deves saber isso...
Durante as viagens de comboio, sinto a ansiedade crescer, e a frase a crescer dentro de mim: fazes-me falta.
Faz-me falta sentir o teu calor na cama, a mão que fica pousada na minha perna e à medida que adormeces vai escorregando e tremendo com os teus sonhos. Faz-me falta sentar-me no sofá contigo, e de vez em quando olhar para ti, saber que estás ali, a olhar-me com aquele olhar bonito, que só me dá vontade de sorrir com os olhos. Faz-me falta a tua mania da arrumação, da tua organização no meio do que é o meu caos. Faz-me falta ver-te muito pertinho debaixo dos lençóis e ver a tua boca abrir-se num sorriso, que nunca tem hálito matinal mau e sabe sempre bem. Faz-me falta cozinhar contigo e discutir formas de fazer o arroz e apreciar a forma como fazes as coisas, onde pões a colher de pau, como temperas as coisas. Faz-me falta ir às compras contigo e ver como tudo tem de seguir uma ordem lógica e prática e quando te peço para irmos buscar isto ou aquilo,algo que já passamos umas mil vezes, tu soltas todo o ar dos pulmões impacientemente, mas aceitas e vamos buscar, porque gostas de mim. Faz-me falta pôr as minhas pernas em cima das tuas, que aceitas sempre, apesar de poder ser desconfortável às vezes...e é um terrível hábito meu, mas quando dou por mim ocupo metade do sofá, metade da cama, metade de tudo. A verdade é que gosto de estar junto a ti. Literalmente. Faz-me falta acordar a meio da noite, e de te ver seguir todos os meus movimentos, sempre atento. Só não sinto falta de acordar na manhã em que me vou embora, com o despertador a tocar de cinco em cinco minutos, adiado e adiado à exaustão para termos mais um bocadinho naquilo que nós somos. E quando vais a frase começa a vibrar baixinho.
E talvez seja por isso que sinto assim o coração. Está viciado em ti, e durante os dias que não estás ele "acostuma-se", não se acostumando de verdade, com a ausência. Depois quando voltas, imagino que o que ele sente seja parecido com a sensação de um viciado a ter uma recaída e a voltar ao seu vício.
Hoje estou na minha cama, no meu quarto, na minha casa, mas sinto que deixou de ser a minha cama, o meu quarto e a minha casa. Não me sinto mais em casa, porque a minha casa és tu.
E por isso fazes-me falta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

2013

Nos tempos que correm, a crise é a palavra de ordem, e há dias pensei que tenho vivido numa época de reviravoltas. Assisti à entrada do Euro, a algumas guerras, e agora assisto provavelmente à maior crise económica de sempre.
Todos os dias vejo as notícias, revejo as soluções que se propõem. Quanto mais vejo, mais quero sair do país. E é triste este fenómeno. Saber que no país onde nasci, cresci, a minha terra, não há lugar para mim, não há futuro.
O orçamento de estado para 2013 saiu há dias. As manifestações e as greves são marcadas e acumulam-se. Sei que é fácil e do senso comum dizer que as propostas são más. Mas a verdade é que são mesmo. Acho a nova divisão dos escalões do IRS absolutamente ridícula. Colocar pessoas com rendimentos tão díspares no mesmo patamar é absurdo, e obviamente conduzirá à morte certa da classe média, e por conseguinte a uma descida do consumo. Sem consumo, não há receita para as empresas, o que conduzirá provavelmente a um aumento da fuga fiscal. E virá com toda a certeza mais recessão. Num país tão pequeno e agora tão pobre, a carreira política não deveria ser vista como uma carreira superior, mas sim uma oportunidade de fazer algo, mudar, contrariar a corrupção, os movimentos de capital para bolsos impróprios.
Os efeitos nefastos das crises económicas do século XX, parecem-me agora algo expectável. Fome, desemprego, pobreza bem marcada. O pior é que noutras crises, as pessoas estavam habituadas a não ter tanto, os filhos tinham de comer aquilo que havia, e hoje é diferente. Ninguém está preparado para viver na pobreza absoluta. Pensar nisso é assustador.
Hoje sei que a europa é uma fachada. O que outrora vi com expectativa, hoje vejo como algo morto. Não há sentido de união. Há jogos de interesse, há uma Alemanha cada vez mais implacável, há uma chanceler que quer o poder da Europa por inteiro, o domínio completo das dividas, dos rumos dos países.
Há anos que “apertamos o cinto”, mas havia ainda a esperança de algo mudar. Hoje há medo. Medo que tudo se afunde de vez.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Os velhos vão destruir o estado social?

Efectivamente é com medo e espanto que vejo os dados estatísticos de 2011. Existem 129 idosos para 100 jovens, e a perspectiva é que em 2060 existam 271 idosos para 100 jovens. É assustador. Portugal é o quinto país mais envelhecido, o que significa que a população activa é muito pouca, e os que dependem dessa população são muitos. Acredito que isso a longo prazo represente um problema para o estado social, podendo este vir a sofrer alterações muito graves. Um dos problemas que me angustia mais, é que a população que é activa actualmente fique sem pensões, o que pode conduzir a um caos social que nem é bom imaginar. Ninguém está preparado para isto. Ninguém que trabalha durante 30 anos, uma vida, está preparado para viver a velhice sem reforma. E é isso que vai acontecer. Qual é a solução? Para mim, aumentar a população activa, o emprego, a produção.
Neste momento era importante discutir estes dados estatísticos de forma muito séria, para construir políticas de apoio à natalidade (que neste momento é das mais baixas de sempre), promover a imigração e não a emigração, promover cada vez mais a exportação e políticas de aproveitamento do vasto território agrícola português,e tentar implementar medidas que fizessem de Portugal um sítio aprazível para abrir grandes negócios. Enfim, colocar Portugal na real rota de crescimento económico.
Em vez disso parece que todos querem ver o estado social morrer.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Da crise e da insensatez



Não sei se é da crise que põe as pessoas insensatas, mas quase todos os dias existem declarações algo desvairadas. Foi o caso deste sábado que passou, em que António Borges disse que as medidas da TSU apoiadas pelo governo eram inteligentes e que os empresários que se revoltaram contra estas medidas eram uns ignorantes.
Bem, na minha humilde opinião este senhor é um banana. Primeiro porque (supostamente) percebe de finanças e economia e ao apoiar o governo nesta decisão da TSU, revela que provavelmente a teoria que aprendeu nunca foi aplicada em casos reais. Ignorar os efeitos económicos destas medidas da TSU na população é muito grave. Dizer que é uma medida com pernas para andar é de ignorante. Desde perda de poder de compra, reduções astronómicas do rendimento familiar em pessoas já endividadas, perda de competitividade, instabilidade social…há tanto que podia correr mal.
Para além de apoiar este tipo de medidas e ser extremamente arrogante, foi de facto estúpido pensar que as declarações dele não teriam repercussões quando as disse precisamente num fórum empresarial. Isto foi quase como chocalhar uma colmeia inteira de abelhas e pensar que sairia incólume. Toda esta história lembra-me que sim podemos ter direito a ter opiniões e a discuti-las em público, mas quando se é um consultor do governo é esperado que tenha outro tipo de postura. E lembra-me mais uma vez que em Portugal reina a política de impunidade absoluta. Em tudo. Desde o mais baixo cargo até ao mais alto, a incompetência e a insolência são premiadas com cargos políticos.
Atendendo ao facto de que este senhor irá ajudar o governo com os processos de privatizações, só posso dizer que tenho medo, muito medo.

Recomeçar

Já há muito que não escrevo aqui. Não percebo porque é que parei. Não que tenha parado de escrever, de pensar no que me rodeia. Nunca. Mas talvez me tenha afogado um pouco na corrente de coisas, de uma vida que vai passando, e comecei a escrever para mim, e a comentar e a discutir com outros sem ser aqui. Apercebi-me durante este tempo que me fez falta. E com tudo o que se passou e se tem passado nos últimos tempos no país não posso e não quero ficar quieta e calada. Nem que ninguém veja, nem que ninguém me ouça, preciso de escrever, contar aqui. Para mais tarde voltar e recordar o que escrevi, coisas sobre o país e o mundo, histórias de rir e chorar, coisas parvas sem sentido. Está na hora de recomeçar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A lei da selva

Adoro quando o Alberto João Jardim acusa o Sócrates de ter posto Portugal numa situação difícil, quando ele arrecadou uma dívida de 1900 milhões de euros. Pelo menos até agora...este número pode subir. Muito bem, muito bem. O deslumbre do zé povinho com os fatos de carnaval e comícios com música pimba, é revoltante simplesmente. O mais fascinante é que este homem aparece em pé de igualdade ao lado de outros candidatos, viola sistematicamente leis e ordens impostas pelo governo, e continua a sambar por aí. Mais valia assumirem de uma vez por todas que em Portugal vigora a lei da selva.